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Criança de UTI

24/08/2011 08:53 por Octavio Lacombe 16 Comentários

Não sei se vocês também acham isso, mas acho que crianças que tiveram a experiência de ter ficado em UTIs são diferentes. Duvido que haja algum estudo sobre isso e tenho quase certeza de que minha impressão não passa apenas disso. Uma impressão baseada na minha própria experiência.

Dos três aqui de casa, um ficou na UTI, o Diogo. Nada grave. Ficou por vinte dias apenas para ganhar peso. Afinal, não pesava nem 2 quilos, era um cisco de gente. Para mim, vê-lo sozinho dentro daquela caixinha transparente era angustiante. Deixá-lo no hospital e ir pra casa com os outros dois foi de partir o coração.

Desde então, eu percebi que o comportamento dele era diferente do dos irmãos. Ele era mais bravo, reclamava mais, se manifestava contrariado. Afinal, na UTI era cutucado a toda hora, tomava remédios, recebia cuidados de pessoas diferentes, ficava lá sozinho, estava longe da mãe. Não tenho a menor dúvida de que ele tem a memória desta experiência, assim como todas as crianças que passam por isso.

Ele foi pra casa, cresceu, logo alcançou os irmãos em peso e tamanho, mas acho que tem uma sensibilidade e uma inteligência diferente de Laura e Mario. Afinal, ele teve de superar dificuldades, enfrentou situações sozinho, teve de brigar pra sobreviver. Ele sempre soube se colocar, reclamar aquilo que acha ser seu direito. Se expressa de forma diferente. Com eloquência, eu diria. Também é mais propenso a atividades que pode fazer sozinho, como desenhar, ler e pesquisar sobre assuntos de que gosta. Ele é mais determinado, mais persistente. Não sei, mas noto que outras crianças que passaram por UTI também têm essa marca da superação, da determinação.

Você pode dizer: “é a personalidade dele”. Sim, não posso deixar de concordar que pode ser que ele já tenha vindo ao mundo assim. Mas me inclino a considerar as teorias de que o meio nos afeta, de que a influência do meio tem efeitos poderosos sobre nós. E a experiência do Diogo e de outras crianças de UTI é, sem dúvida, marcante. Tão marcante a ponto de dotá-los de atributos diferenciados. Ou, sabe-se lá, isso é apenas um olhar de pai…

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Octavio Lacombe: Arquiteto, urbanista, professor e blogueiro, Octavio é casado com Bia desde 2000 e pai dos trigêmeos Diogo, Laura e Mario, que nasceram em 2004. Sobre os filhos, diz que “sabem se divertir juntos e adoram ter mais amigos por perto”. Atualmente, a família vive em Calgary, no Canadá.
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16 Comentários

  1. Denise Freitas disse:

    Com certeza superação é uma característica marcante do pequeno. Meu afilhado nasceu no 6º mês de gestação e ficou por 40 dias na UTI. Ele não tem essas mesmas características do Diogo, mas é também uma criança muito especial!

    bjs,

  2. Octavio disse:

    Denise, acho que a experiência faz deles crianças muitos especiais.

  3. elisabeth disse:

    octávio, dos seus textos, que sempre gosto muito, este foi um dos melhores! Como relata bem a diferença entre os pequenos, tanto em se tratando de múltiplos, quanto de bebês únicos. Do meu trio, felizmente nenhum ficou na UTI, mas um deles, que nasceu com um pouco mais que dois quilos, e 46 cm, notei desde o início a diferença crucial entre ele e os outros dois. O ITALO é uma criança maravilhosa! emociona – me a todo momento, todo dia. ONtem mesmo, eu voltara do trabalho com angústia no peito, magoada com problemas havidos no trabalho, quando ITALO ao olhar para mim, pediu – me colo, e, ao estar em meus braços, cobriu – me de beijos na bochecha, foram tantos, um atrás do outro. e, após, deu – me um abraço apertado, e tornou a beijar – me. De repente aqueles problemas profissionais tornaram – se tão pequenos, ínfimos, e tive a certeza que a cada dia o meu ITALO iria tornar – se uma criança plenamente normal, feliz, completa do seu jeito e com as suas lembranças também tão presentes ainda, da época da gestação em que ele foi o suporte dos outros dois, ficou embaixo, segurando os outros dois irmãos, encolhidinho, que quase não se conseguia localizá – lo nos exames, mesmo os em 3D. VEja só, tornamo – nos melhores também com eles, pois ao recebermos aquele amor incondicional sabemos exatamente para o que vale a pena viver. grande abraço!

  4. Monica Maroni disse:

    Meu filho mais velho, Felipe, hj com um ano e quatro tbem ficou quinze dias entubado, teve hipertensao pulmonar qdo nasceu, era grave e chega a ser mortal. Mas ele superou e veio para casa forte e independente. Nunca deu trabalho ja que teve uma rotina na uti. Eh uma crianca de ouro e alegre, parece q sabe q eh um vencedor.

  5. Fabiana Deziderio disse:

    Octávio.

    Sou partidária de sua observação.
    Ele passou por uma experiência diferente e como disse, lutou mais que os irmãos para sobreviver e para alcança-los. Que bom que deu tudo certo, porque esta experiência corta o coração dos pais.

    Bjs.

  6. Jussara disse:

    Interessante sua observação. O que eu sei é que é muito ruim pro bebê ficar na UTI pela questão de ficar sozinho, sendo furado, verificado, mexido por estranhos, como vc falou. É um ambiente inóspito. Tanto que já está provado há algum tempo que o contato do bebê com a mãe (o mãe canguru) ou pai, por alguns minutos , todos os dias, aumenta a recuperação e antecipa a saída da UTI.

    Eu sempre tive uma sensação de abandono muito grande, e só depois que comecei a ler sobre isso e me inteirar, é que fui me dar conta que “acho” que isso vem de quando eu era recém-nascida, pois minha mãe passou mal no parto e eu fui deixada sozinha por horas a fio, mal retiraram aquela substância amarela (esqueci o nome) e dias depois quase morri engasgada com isso. Pode ser só achismo meu, mas acredito que tem tudo a ver (hoje tb já está provado a importância do bebê ir logo para o colo da mãe, imediatamente após nascer, fato que não aconteceu comigo e que infelizmente continua não acontecendo com milhares de crianças). Então, concordo com vc que o Diogo tenha memórias dessa fase.

    De todo modo, creio que são crianças guerreiras, sim, que tiveram que superar obstáculos já desde os primeiros dias de vida. Deveriam ter estudos sobre isso, mas como é uma coisa muito abstrata, acho que fica difícil “medir”. É só na observação mesmo de pais atentos como vc. Mas acho que tudo tem dois lados: tem esse lado da eloquência, superação e determinação, mas deve ter o lado ruim tb, de ter se sentido sozinho, “abandonado”; mesmo que ele não verbalize isso ou nem tenha consciência.

  7. Carlos Bueno disse:

    Concordo com você, Octavio. O meu pequeno Miguel (Um dos trigemeos: Rafael, Carolina e Miquel, nos seus 100 dias de UTI, desenvolveu uma capacidade de superação muito grande: É mais persistente, organizado, luta pelo que quer! Se não fosse esses atributos, semelhantes ao do Diogo, não teria conseguido superar as cinco cirurgias e suportar as necessárias intervenções da UTI NEO-NATAL.
    Se por um momento eu disse a ele na UTI: Miguel, vá embora, para de sofrer… Ele com seus olhinhos penetrantes dizia-me (acredito): Não papai: eu vou superar!… Acho que memoria da UTI, ele não tem. Porém no seu subconciente, ficou marcado a forma de reagir a situações de perigo ou dificuldade semelhantes. Tanto que hoje é um menino perfeito e vitorioso. Um abraço!

  8. Octavio disse:

    Beth, que história legal, um dia ainda colocamos esses 6 juntos…

  9. Octavio disse:

    Oi, Monica, acho que voce disse tudo, são mesmo vencedores!

  10. Octavio disse:

    Fabiana, sabe que é uma sensação que agente nem gosta de lembrar, aquela de ir visitar o filho na UTI. Parte mesmo o coração…

  11. Octavio disse:

    É, Jussara, acho que tem um pouco desse lado também, de ficar sozinho, talvez seja por isso que os tri não se separam…

  12. Chris Strauss disse:

    Excelente observação. Aqui em casa, temos o nosso Joaquim com características como as do Diogo, independente, determinado, persistente… também acredito que seja efeito do tempo na UTI (ele ficou 20 dias, os outros dois nem uma semana). Será que existem estudos sobre isso? Vou procurar saber…
    Bjssss,
    chris e mosqueteiros

  13. Octavio disse:

    Carlos, lindo o que escreveste do Miguel. Ele eh um guerreiro! Abracos

  14. Octavio disse:

    Chris, se voce achar alguma coisa me avisa. bj

  15. Fabiana disse:

    Meu filho hj tem 2 meses e ficou 10 dias na uti, 5 dias entubado e recebendo antibiotico intra venoso…Vejo claramente as caracteristicas que descreveu nele…claro que ele ainda não fala e em sabe se posicionar, mas as atitudes já revelam essa determinação e independencia. Também acredito na memória dos bebes desses dias…e realmente é oque eu pedia a Deus pra apagar…não gostaria que isso afetasse de forma negativa a vida dele…Ainda me pego lembrando dos dias passados em pé em volta da caminha dele, desejando que os anjos fizessem por ele oque eu gostaria de fazer…abraçar, beijar e cantar pra ele…e foi assim que eu e meu marido superamos essa experiência.Hoje, mais do que nunca acredito no poder das palavras e na vontade de Deus pra nossas vidas.

  16. SANDRA REGINA MORETTI DICTORO disse:

    EU TAMBEM ACREDITO QUE OS DIAS PASSADOS NA UTI
    FICAM REGISTRADOS NO SUBCONCIENTE DO BEBE,POIS MEU FILHO,HOJE COM 4 ANOS TAMBEM,PASSOU POR ESSA EXPERIENCIA E TAMBEM TEM UMA PERSONALIDADE FORTE E DETERMINADO.

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